Ainda causa desconforto em nosso meio um artigo publicado na semana passada pelo jornal espanhol El País com o seguinte título: “Por que os brasileiros não reagem à corrupção de seus políticos?”. O texto assinado pelo jornalista Juan Arias lembra que em apenas seis meses do governo Dilma dois ministros foram depostos de seus cargos em decorrência de denúncias de irregularidades e a sociedade parece ter encarado os fatos como absolutamente normais.
De acordo com o observador estrangeiro, o comportamento dos brasileiros contrasta com o de outras populações, especialmente de países da África e do Oriente Médio, onde parcelas expressivas dos cidadãos, especialmente os jovens que se comunicam por redes sociais, estão promovendo manifestações coletivas contra governantes corruptos e autoritários. No Brasil, ele ressalva que uma das poucas vozes indignadas foi a presidente Dilma Rousseff, que manifestou sua intolerância em relação à corrupção, mas que as multidões preferem sair às ruas por outras causas, como as passeatas em defesa da maconha, pelos direitos dos homossexuais e dos seguidores de igrejas evangélicas. Pela ética ninguém se manifesta, conclui o articulista.
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| Precisamos de mais pessoas honestas participando da política. |
A superficialidade da análise é evidente, mas não deve desmerecê-la. Embora as comparações sejam forçadas e talvez inadequadas, a verdade é que a corrupção parece mesmo ter-se transformado em triste rotina na vida dos brasileiros. Não passa semana sem que os meios de comunicação divulguem falcatruas no âmbito do poder público, e o máximo que acontece é a troca de um ocupante de cargo por outro, sem punições, sem o ressarcimento dos recursos desviados e sem a garantia de que as irregularidades não voltarão a ocorrer. Diante deste estado de coisas, o povo brasileiro passa a impressão de estar anestesiado.
É bem possível que uma das explicações para a apatia política seja o bom momento econômico e social do país, com a vigência de programas de distribuição de renda e o resgate de 30 milhões de carentes para o mercado de consumo. Também pode haver nesta acomodação o componente cultural detectado pelo analista espanhol, de que não adianta mesmo protestar porque “todos são ladrões” e “ninguém será preso mesmo”. Mas nenhuma das duas hipóteses justifica o imobilismo.
O que parece mais provável é que, se os brasileiros não se sentem estimulados a sair às ruas como fizeram na campanha das Diretas Já ou no movimento pelo impeachment de Collor, estão aprendendo a se manifestar de outras maneiras e por outros instrumentos. O uso das ferramentas tecnológicas permite hoje uma pressão menos rumorosa, mas também eficiente, sobre governantes, autoridades e sobre os próprios veículos de comunicação, para que eles sejam porta-vozes efetivos da cidadania. Cada pequena conquista de transparência, por mais insignificante que pareça, representa um passo a mais na caminhada pelo combate à corrupção.
Fonte: Zero Hora.com
Charge: marlivieira.blogspot.com


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